sábado, novembro 19, 2011

Ficção

Era a primeira vez que andava num daqueles. E justamente na primeira vez pegou uma poltrona virada de costas – isso mesmo, no sentido contrário ao caminho feito pelo ônibus.
Primeiro achou estranho, ficou com medo de enjoar, ainda mais que estava lendo um livro de teoria, meio chato.
Na medida que o caminho acontecia ele começou a achar interessante. Não se sentiu mal e estava vendo as coisas por outro ângulo. Não falam que devemos ter um olhar diferente sobre as coisas? Think out of the Box e outras baboseiras de autoajuda?
Pensou nessas frases feitas mais divertindo-se do que acreditando, mas gostava da sensação diferente.
Na verdade, qualquer coisa seria legal, pois a viagem havia sido extremamente produtiva e ele estava voltando para casa cheio de boas notícias que iriam mudar sua vida profissional e pessoal.
Estava tão feliz que nem ouviu o barulho da frenagem de um caminhão que perdia o controle e atravessava da pista ao lado para a sua, na contramão.
Tão distraído que nem ouviu o barulho de vidros se quebrando e ferragem sendo amassada e retorcida, do caminhão em choque com o seu ônibus.
Feliz e distraído demais para perceber que o impacto daquela ferragem toda na nuca causaria sua morte imediata.

Acordou assustado. Guardou o livro e, por via das dúvidas, trocou de lugar.

2 comentários:

Dinho disse...

Excelente! Daqui a pouco os estará matando (os personagens, é claro). Acho ótimo.

Galvao disse...

Po Pedro acabou de dizer que nao tem medo de aviao, mas com medo desse onibus-curupira???!!!!