domingo, janeiro 30, 2011

Antônio Carlos Maciel

Se você colocar o nome dele no Google, dificilmente vai achar a pessoa de quem quero falar. Ele não aparece muito facilmente nas buscas.
Assisti há pouco na ESPN Brasil um documentário sobre atletismo que incluía a história deste jovem atleta - confesso que não vi o programa inteiro. Parece que tem a segunda melhor marca do Brasil no arremesso de dardo. Mora num barraco construído de forma clandestina à beira de uma rodovia. Desde que nasceu, há 17 anos atrás.
Aliás, aqui cabe um parêntese: a Prefeitura de Sertãozinho paga (ou pagava, não sei) salário a este atleta, que tem como endereço um barraco, construído às margens de uma rodovia em condições absurdamente arriscadas. Depois, quando acontece Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e tantas outras catástrofes que já vimos, a culpa não é de ninguém.
Na história deste atleta, absurdos como ser analfabeto funcional e mesmo assim ter cursado até a quarta série e o fato de ter sido amamentado durante cerca de um mês por uma cachorra que havia perdido a cria. Você achou graça? Ficou chocado? Não precisa, pois, segundo ele, "vida de pobre é assim mesmo".
No mesmo programa, uma reportagem sobre a nossa melhor esgrimista, que recebe um salário de R$ 2.800,00 por ser a número um do Brasil em um esporte olímpico - aliás, um esporte considerado de elite.
Tudo isso num país que vai sediar as Olimpíadas em 2016!
Enquanto a gente chamar as histórias do Antônio Carlos e de milhares de outros atletas brasileiros de "história de superação", ou de "exemplo de um povo guerreiro", em vez de chamar de falta de estrutura, pouco caso e até, por que não, falta de vergonha na cara de políticos e das pessoas que comandam o esporte neste país, não vamos a lugar nenhum.
Joaquim Cruz deu uma entrevista dia desses que vale a pena ser lida. Medalhista olímpico (ouro e prata) e duas vezes campeão panamericano, o ex-corredor vive nos EUA desde muito novo. Teve condições de, na época, mudar-se para lá para treinar e hoje tem nos EUA, terra de grandes atletas e de vários medalhistas olímpicos, uma valorização como profissional que até hoje ainda não teve no Brasil.
Na entrevista exclusiva ao Estadão (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110125/not_imp670794,0.php) o ex-corredor fala de coisas que são óbvias, já foram ditas diversas vezes por diversas pessoas, mas parecem não ser ouvidas.
A gente ainda prefere a história do menino de favela que cresce graças ao futebol e vira ídolo. Ou, pior, os competidores de atletismo que, mesmo depois de alcançarem o topo no seu país, continuam vivendo em situação de total miséria.
E tendem a ter uma história como a do João do Pulo, que morreu na miséria aos 45 anos, depois de ser recordista mundial no salto triplo - marca que demorou dez anos para ser batida.
Mas a gente não lembra disso. A gente só vê o Jadel, a Fabiana, a Maureen, que também tem belas histórias, mas que hoje estão no topo. E então se emociona, bate no peito e, hipocritamente diz: "Eu sou brasileiro e não desisto nunca!"

Um comentário:

ReD_LiPsTiCk gIrL disse...

obrigada por compartilhar sobre a vida do Antonio!